quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

O medo segundo um entregador de pizza

Eram seis horas da manhã, a noite havia sido longa e eu estava um pouco bêbado, por isso, acabei me perdendo. Tentei me recompor e percebi que estava em frente o cemitério da Soledade. Fiquei tenebroso com a situação, se há uma coisa que eu não gosto é cemitério, mas comecei a ouvir gritos e eram gritos ensurdecedores. Pensei que pudesse ser um maníaco tentando estuprar uma mulher, tomei coragem e entrei.
Diante um túmulo um rapaz chorava e dizia frases impossíveis de se compreender. Perguntei então:
- Que tens?
- ela, ela... – respondeu
- vamos diga, estou bêbado daqui a pouco nem lembro o que terás dito!
Silêncio por alguns instantes, o suficiente para ele retornar a si e dizer:
- sou entregador de pizza, como deves estar percebendo – ele estava de uniforme.
- sim, percebi – respondi.
Sem rodeios ele começou a contar:
- Recebemos uma ligação solicitando uma pizza. Como era madrugada e nesses horários os pedidos são em menor freqüência não demorei a fazer a entrega, que era no Ed. Manoel Pinto da Silva. Ao chegar ao apartamento de Clarice ela estava apenas de calcinha e sutiã, mas mesmo assim me convidou para entrar e comer a pizza, pois na verdade ela estava apenas querendo companhia, enquanto terminava de redigir um texto. Entrei, afinal, eu estava com fome, minha jornada de trabalho é muito longa, já meu salário é extremamente curto, nunca pude me dar o luxo de comer dessa pizza.
Clarice falou bastante, disse que estava extremamente aborrecida com a transformação do central hotel em loja de roupas, por fim disse:
- queres ler o que acabo de escrever, enquanto tomo banho e troco a roupa?
- sim – lhe respondi. Na verdade eu não queria ler, mas era uma desfeita, afinal ela havia me dado uma pizza.
Clarice saiu da sala e eu comecei a ler seu texto. Surpreendi-me com o que ela havia escrito, era uma estória de uma moça que havia morrido e que fora enterrada no cemitério Soledade. No final do texto ela dizia: “tu que acabaste de ler esse texto vá ao cemitério da Soledade e no túmulo desta moça diga palavras sem sentido, caso contrário...”.
Achei envolvente aquela estória, chamei por Clarice, pois queria parabenizá-la pelo que havia escrito, mas ela não respondeu. Fui ao banheiro, quarto, cozinha e nem sinal de Clarice. Acabei vindo parar aqui, disse inúmeras frases sem sentido, você apareceu e eu já estou aliviado.

Lucas F